Quantas vezes essa frase já foi recebida com um olhar de desconfiança?

Talvez você mesmo já tenha ouvido uma resposta como:

"Isso é impossível."

"Você deve estar comendo escondido."

"Se realmente comesse pouco, já teria emagrecido."

O problema é que essas frases não refletem a ciência. Refletem uma visão ultrapassada sobre o funcionamento do corpo humano.

 È ignorar a fisiologia e a complexidade do metabolismo.

O organismo não é uma máquina que responde apenas à matemática das calorias. Ele se adapta.

Quando passamos por longos períodos de restrição alimentar, privação de sono, estresse constante, alterações hormonais, inflamação, uso de alguns medicamentos ou mudanças na composição corporal, o metabolismo também muda.

O corpo reduz o gasto energético.

A fome pode aumentar.

A saciedade pode diminuir.

A preservação de gordura passa a ser uma estratégia de sobrevivência.

Em outras palavras: o corpo tenta proteger você, mesmo quando esse mecanismo dificulta a perda de peso.

Isso significa que toda pessoa que afirma comer pouco realmente come pouco?

Nem sempre.

A percepção alimentar pode ser diferente da ingestão real, assim como podem existir episódios de compensação alimentar, alterações emocionais, mudanças hormonais ou adaptações metabólicas importantes.

Mas existe uma enorme diferença entre investigar e julgar.

Um profissional comprometido não parte da desconfiança.

Parte da curiosidade clínica.

Pergunta.

Observa.

Avalia exames.

Analisa a composição corporal.

Investiga o sono, o estresse, o comportamento alimentar, o intestino, os medicamentos, o ciclo hormonal e toda a história daquela pessoa.

Porque cada paciente carrega uma história que não aparece apenas na balança.

A obesidade e a dificuldade para emagrecer são condições multifatoriais. Reduzi-las à ideia de "coma menos e mova-se mais" significa ignorar décadas de pesquisas em fisiologia, endocrinologia, neurociência e comportamento alimentar.

Como nutricionista clínica integrativa e comportamental, acredito que nenhum paciente deveria sair de uma consulta carregando culpa.

Ele deve sair carregando compreensão.

Quando substituímos o julgamento pela investigação, algo importante acontece: o paciente deixa de lutar contra o próprio corpo e passa a trabalhar com ele.

E talvez seja justamente aí que começa a verdadeira transformação.

Antes de desacreditar quem diz "eu como pouco e não emagreço", faça uma pergunta simples: "O que o corpo dessa pessoa está tentando me mostrar?"

Essa pergunta vale muito mais do que qualquer julgamento.

Dra. Débora Regina Lima | Nutricionista